28/10/2026
Nas últimas semanas, enquanto milhares de pessoas se manifestam pelo direito à habitação e a melhores condições de vida, vemos imagens de violência e destruição que acabam por se sobrepor às de quem exerce pacificamente esse direito.
E questiono-me sobre aquilo que estamos a construir enquanto sociedade.
Sou arquiteta. Sou das primeiras pessoas a desenhar o teto de alguém, ainda antes de ele existir. Conheço as dificuldades de quem procura construir ou adquirir uma casa. Algo que deveria ser um direito efetivamente acessível a todos.
Comecei a viajar tarde, já em contexto profissional. E quanto mais conheço o mundo, mais questiono esta sociedade de ilusões em que vivemos.
Foi do outro lado do mundo, em lugares onde julgamos não existirem as nossas regalias e comodidades, que encontrei algumas das maiores demonstrações de gratidão, empatia e sentido de comunidade.
Conheci famílias que partilhavam o mesmo teto, por vezes em condições muito difíceis, mas onde o respeito, os afetos, a ancestralidade e o cuidado com os outros ocupavam um lugar central.
E pergunto-me: o que entendemos, afinal, por evolução?
Vivemos numa sociedade onde a especulação imobiliária contribui para tornar a habitação inacessível, onde assistimos à exploração de pessoas e onde tantas vezes confundimos progresso com crescimento económico.
Também nós, arquitetos, promotores, construtores e decisores, temos responsabilidades. Precisamos de questionar mais, exigir mais e construir de forma mais consciente, humana e em comunhão com a natureza.
Porque construir não deveria ser apenas erguer paredes. Deveria ser criar condições para viver com dignidade.
Talvez tenhamos aprendido a construir edifícios cada vez mais sofisticados, mas estejamos a desaprender a construir uma sociedade.
E, ainda assim, continuo a acreditar na beleza do mundo, na humanidade e na nossa capacidade de fazer melhor.
Quero acreditar que é também isso que tantas pessoas procuram dizer quando saem à rua: que precisamos de uma sociedade onde o direito a uma casa, à dignidade e a uma vida melhor não seja um privilégio.
A refletir…