09/10/2026
Armando Soares Imaginário
LIVRO DE ARMANDO SOARES IMAGINÁRIO
Domingos Lobo
O brilhante prefácio que abre em esplendor de síntese este
“monumento de palavras”, como lhe chamaria David Mourão-Ferreira, poupa-me tempo e longo discurso. O prefácio é já, na abordagem que faz deste livro, uma apresentação emotiva e crítica do vasto legado literário de Armando Soares Imaginário, cujo percorre quase todos os géneros da arte da escrita literária: a tradução, a poesia, o teatro, a narrativa breve e o ensaio.
De idêntico sentido são as notas introdutórias de Carlos Petisca, resgatando a Fénix e conduzindo-nos pela história de um singular percurso que levou à descoberta, dentro de um velho s**o de desporto, da vasta e poliédrica obra de Armando Imaginário. Não já a famosa arca de Pessoa, mas um s**o a abarrotar de “pequenos blocos de merceeiro, folhas soltas, cartazes de corridas de toiros, sinopses de filmes exibidos no Cineteatro da Chamusca, a par de textos limpos, de fragmentos, versões, poemas não acabados, ideias esboçadas”. Mas, sobretudo, a revelação de uma actividade literária intensa, obsessiva quase, pungente. Um património criativo plural, a aguardar, há anos, o dia de ser descoberto, de ver a luz. Diz-nos Carlos Petisca, que havia deixado de ser um velho s**o para se tornar “uma responsabilidade”.
Com essa “responsabilidade” às costas, que imagino carregada de espanto a cada pepita descoberta, Carlos Petisca inicia a tarefa de escolher, de selecccionar, naquele amontoado de papéis, o legado criativo de um jovem que, na vida brevíssima, havia já publicado um livro, Chamas e Cinzas, título quase premonitório, dir-se-ia. O trabalho de descoberta, que terá sido longo de anos, foi profícuo, revelando-nos um autor de voz madura, invulgar na incursão por géneros vários, mas em que a poesia sobreleva, quer pela abordagem sensitiva dos temas, careados de elementos históricos e líricos que a constituem exemplar, quer pelo domínio da língua, pelo rigor métrico, nomeadamente, nos sonetos, os quais, só por si, serão merecedores de um estudo profundo, quer pela sua metodológica concepção, quer pelas influências que o jovem autor terá sofrido durante a sua génese.
Património de todo invulgar, único, diria, na nossa literatura, que a morte interrompeu (“morrem cedo os que os deuses amam”, escreveu António Manuel Couto Viana), a tuberculose, ao caso, a mesma enfermidade que já ceifara a voz de muitos poetas, de
Cesário Verde, a António Nobre, Júlio Diniz e tantos mais.
Nascido na Chamusca, vila rural do alto Ribatejo (o pleno coração deste território, dirão alguns), nascido em 1928, dois anos após a queda da 1ª. República e na vigência da Ditadura Militar, atravessando os anos da pré-adolescência e da adolescência breve com o espectro da tragédia social e humana que foi a Guerra Civil de Espanha e os ecos da barbárie que a 2ª. guerra mundial espalhou pela Europa, com o Estado Novo já instalado com a sua Constituição de 1933 a dar-lhe lastro de legalidade, em ambiente assim, os horizontes literários, culturais e lúdicos da vila ribatejana não seriam, por essa data, propícios ao desenvolvimento criativo, mormente da literatura, da poesia em particular, função que necessita de serenidade, interioridade e reflexão. Imaginamos o jovem Armando Soares (não passou, infelizmente, no seu período criativo, de um jovem adolescente), a ler tudo o que lhe aparecia, quer livros que teria em casa, quer em bibliotecas particulares ou sociais, a sorver as palavras e a transpô-las em forma literária, para a poesia, primeira incursão desse arrebatamento seria nesse género, no teatro e nos outros departamentos da criação literária, que a vida breve impunha e o talento, sôfrego e carregado de urgências, transpunha e se dispersasse, tal o fogo, a ânsia, esse incontido grito de fixar as palavras que lhe agitavam a cabeça, o coração, o corpo inteiro.
Sabemos que Fernando Pessoa, escreveu os seus poemas ingleses (então vivendo na África do Sul), aos 16 anos, que havia nesses sonetos já uma linguagem adulta, acutilante e lúcida; que Miguel Rovisco nos deixou aos 27 anos, com uma obra teatral notável, que a crítica considerou inovadora e comparável à obra de Santareno; que a minha geração, nascida no pós-guerra, começou púbere a publicar nos suplementos literários juvenis dos jornais República e Diário de Lisboa, mas eram incursões breves no conto, na poesia, na crítica de cinema, nada de substantivo, de “obra feita” e
continuada. A guerra colonial irá revelar, com obras sobre o conflito, uma escrita já maturada, a obra relevante desses aprendizes de feiticeiro: Fernando Assis Pacheco,
Fernando Dacosta, António Lobo Antunes, Modesto Navarro, Alice Vieira, Wanda Ramos, Sérgio de Sousa e eu próprio. Registam-se algumas incursões adolescentes em dois grandes poetas do século XX, José Gomes Ferreira, com o seu Lírios do Monte, publicado quando o autor tinha 15 anos e José Carlos Ary dos Santos, aos 14 anos, com o livro Asas, ambos, o de Zé Gomes e o de Ary, editados pelas famílias, opúsculos que, anos volvidos, os autores rejeitariam.
Se a morte o não tivesse levado tão cedo do nosso convívio, Armando Soares Imaginário, teria juntado, certamente, a sua inquieta voz poética à dos autores seus contemporâneos (nascidos na década de 1920) e do grupo de Coimbra que, em 1941
iniciou, com Novo Cancioneiro, um dos projectos mais inovadores, marcantes e fecundos na nossa poesia, com nomes como Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, Fernando Namora, Joaquim Namorado, João José Cochofel, Sidónio Muralha e Álvaro
Feijó, este último também falecido precocemente, aos 24 anos. Ou, noutra corrente estética, na Távola Redonda, com nomes como José Terra e David Mourão-Ferreira.
Poeta imageticamente plural, mas arreigado às tradições do seu chão primevo, católico, mas aberto ao pulsar da vida, ao mundo do qual cedo percebeu os imperecíveis rumores.
Carlos Petisca, o grande pesquisador destes tesouros, confessa o êxtase que foi desbravar centenas de páginas inéditas, de descobrir uma voz já com identidade, a crescer e a impor-se em cada verso: “Não fomos nós que demos asas ao Armando. As
asas já estavam ali”; ele apenas abriu a gaiola, e este “apenas” dá muito trabalho, muita leitura, muito suor, muita fulgurante descoberta, muitas noites desassossegadas!
No primeiro soneto desta colectânea, em boa-hora levada à estampa pela Cosmos e pelo atento olhar do seu editor, escrito aos 15 anos (são raros os poemas grafados com lugar e data), com o título “1º. de Dezembro”, o poeta exalta a Pátria, o seu ressurgimento após 60 anos de domínio dos Filipes. É um Portugal renascido, da liberdade reconquistada em 1640, num gigante impulso de braveza; o 2º. Soneto, “A Alma dos Lusíadas”, percorre o mesmo impulso de exaltação dos feitos dos nossos egrégios, os
que dominaram a fúria titânica do mar,/na confusão de gritos e orações.// Em cada voz da tempestade louca/em cada olhar tremente, e em cada boca/erguia-se uma estância de Camões.
Em ambos os sonetos descobrimos, no modo arrebatado como o autor fala de Portugal e dos seus heróis, algo que nos faz lembrar a força telúrica do longo poema Pátria, de Guerra Junqueiro (quanto a mim, o grande épico da gesta lusitana, logo a seguir a Os
Lusíadas) e, no 2º., e igualmente no soneto “Alcácer Kibir”, próximo da voz a um tempo contida, mas expressiva de simbolismos, do Pessoa, de Mensagem.
Nestes três sonetos, temos uma construção verbal e lírica algo próxima do tipo de poesia que então os autores do teatro de revista, como Amadeu do Vale, Aníbal Nazaré e Nelson de Barros, escreviam para as actrizes Maria das Neves, Maria Matos e Palmira
Bastos, que arrebatavam as plateias, tempos em que os autores de outras coordenadas criativas não tinham pejo em escrever para esse género teatral. Armando Soares Imaginário, também ele dramaturgo, pertence a esse género de autores como Guerra
Junqueiro, Félix Bermudes, Eduardo Schwalbach, André Brun, ou Xavier de Magalhães, aos quais se juntará, após o 25 de Abril de 1974, nomes como Bernardo Santareno, Mário Castrim e José Carlos Ary dos Santos, todos eles com um grande sentido do poder dramático das palavras.
Também a escola, a “bendita escola”, diz-nos o autor, num país que nos anos 1940 tinha, nas zonas rurais, mais de 70% de analfabetos e, em alguns casos, como na aldeia do Sobralinho, perto de Alhandra, essa percentagem era de 100%, o que levou escritores
como Alves Redol e Soeiro Pereira Gomes a iniciarem aulas de alfabetização e a aí instalarem, posteriormente, uma biblioteca. Mas dizia, também a escola fez parte do álbum de louvores do poeta: Bendita escola e mais quem vai rasgando/luz, nos cérebros
rudes, transformando/crianças de hoje em homens do futuro. Reparem que há já neste soneto uma ténue consciência social, a qual irá atravessar alguns dos textos de Imaginário, onde é patente essa infrene atenção à realidade circundante. Mas o poeta
não deixa, num rasgo de rebeldia infantil, de descrever a escola como uma prisão, referindo o irmão, terminando com um desabafo muito juvenil, o melhor que nela há é o recreio.
Depois dos sonetos de exaltação à Pátria, muito comuns à época, temos a expressão fulgurante do seu amor à terra que o viu nascer. Trata-se de um belíssimo e arrebatado soneto à sua Chamusca natal, datado de 1/10/43, ou seja, dos seus vertiginosos 15 anos
e da sua plenitude criativa:
A MINHA TERRA
Oh! Terra em que eu nasci, que tantos desconhecem,
Tu és, vendo-te assim, a terra mais festiva.
E sinto na minh’alma, em tímida evasiva,
As loucas emoções que aos olhos transparecem.
Saudades que’inda tenho ainda me adormecem
Na ‘sprança de te ver, oh! minha terra esquiva!
Eu quero lá voltar porque ela me cativa,
Conheço toda a gente e todos me conhecem…
Eu quero lá voltar que eu amo esse cantinho,
No qual olhei primeiro o céu de Portugal.
Por Deus, que voltarei ainda velhinho!
Rever eu quero, pois, o meu lindo pombal,
E como a minha pomba, assim dentro do ninho,
Dormir eu quero nela o sono sepulcral!
Trata-se de um poema de alguém que estando ausente, certamente porque a doença já se insinuava, ou por estar a estudar fora, tem a esperança imensa do regresso ao chão inicial, em que todos o conhecem e ele conhece toda a gente, para que nela possa
dormir o sono sepulcral. Para além de uma enorme sensibilidade, neste poema respira já uma voz maior, estruturada e dúctil – adulta, se quisermos, a lembrar Antero de Quental nos seus poemas de despedida, mas aqui, Imaginário (e como este apelido lhe assenta como pelica), a intuir já o fim, essa esperança de ainda conseguir regressar à terra esquiva, ou seja, que ele lobriga já longe, mas desejando, com a força que nas palavras habita, voltar ainda velhinho.
Num outro poema lírico, de registo intimista, o poeta exibe uma voz muito solta, um arrebatamento que é, a um tempo, entrega, recusa e encantamento, mas almejando um radioso futuro, aqui próximo do romantismo límpido de João de Deus.
A NOSSA CASA
Só hoje vi que era pequena assim,
A nossa humilde, encantadora casa.
Um caldo louro a referver na brasa,
E o nosso amor num céu d’azul sem fim.
Cheiro de rosas num ideal jardim,
A acariciar-nos como um ruflo d’asa!
O nosso ninho na campina rasa,
É um bercinho d’infantil cetim.
É linda a nossa casa, entre searas,
Onde todas as noites não são raras
As vozes de escondidos rouxinóis.
Mas agora é que eu vim a reparar,
Ao despedir, quando te fui beijar,
Que nela só cabíamos nós dois!
Reparem na simplicidade da organização sintáctica do poema, o verso certo, a musicalidade, a envolvência, o modo conjuntivo, o cromatismo da descrição: o caldo louro, o cetim do berço, o nosso amor num céu azul, a campina rasa, as searas, as vozes dos rouxinóis: quase a Casa Portuguesa, de Reinaldo Ferreira, mas de um lirismo contido, intimista e desarmante, sem as redundâncias afadistadas do postal ilustrado.
Num outro soneto, dentro da mesma linha simbólica, Armando Imaginário, dá-nos da paixão a medida exacta, seguindo o princípio enunciado por Vinícius de Moraes (que o nosso poeta, pelas razões que sabemos, não conheceu), de que a paixão só é boa enquanto dura e de que a vida dos amantes é feita, também, de separações. Aqui, o sujeito poético conjuga, de forma muito orgânica, em cada verso, três tempos verbais,
desenhando nesses tempos, como a divisão da poética aristotélica, toda a efabulação do poema: exposição, desenvolvimento, clímax. E a voz dual dos amantes percorre todo o texto, dado que no amor e no seu fim há sempre dois protagonistas.
A NOSSA HISTÓRIA
Eu olhei, tu olhaste, nós olhámos;
Eu sorri, tu sorriste, nós sorrimos;
Eu falei, tu falaste, nós falámos;
Eu ouvi, tu ouviste, nós ouvimos.
Eu sonhei, tu sonhaste, nós sonhámos;
Eu senti, tu sentiste, nós sentimos;
Eu amei, tu amaste, nós amámos;
Eu menti, tu mentiste, nós mentimos.
E como a vida é uso em que nos pomos,
Eu vivi, tu viveste, nós vivemos,
Até que nos tornámos no que somos.
Mas o sonho não dura o que nós qu’remos,
E sem já nos lembrarmos do que fomos,
Eu esqueci, tu esqueceste, nós esquecemos!
Os grandes cultores do soneto, Camões, Bocage, Antero, Florbela, são companheiros desta verve, deste estro virtuoso, desta desmesura lexical, deste sentido do ritmo, da monódia intrínseca das palavras, da fecunda imaginação que habitava a cabeça inquieta e o corpo frágil de um rapaz que aos 17 anos nos deixou, legando-nos já burilada, sem rugas temporais (este soneto é de hoje, é de ontem, é de todos os tempos), uma obra poética digna de todos os encómios, de uma singularidade notável e tocante.
Nesta apresentação fico-me apenas pela poesia, considerando esta a respiração mais trabalhada e conseguida da obra de Imaginário. Mas outras sessões se seguirão, estou certo, em que serão desbravados os seus textos para teatro, os seus “entre-actos”, ou
“teatro de cordel”, como era comum nos anos 30/40 do século pretérito e que tinha em Lisboa o seu espaço de eleição, o Teatro Ginásio, paredes meias com o Teatro da Trindade. Valerá ainda a pena passearmos pelos seus contos, pela frescura dessa fala,
pelo modo sensitivo como descreve a paisagem rural, as casas, as gentes, as ruas, as touradas, as festas da Chamusca da sua adolescência. Tanto caminho ainda a desbravar,
tantas janelas ainda por abrir. A Fénix renasceu e há-de voar se os acalentos chegarem e lhe dermos espaço. Se o poeta reside na forma, como nos disse Herberto Hélder, seguindo Todorov, essa
estética está já, conceptualmente instalada, nos seus poemas de modo muito vincado, com identitário rigor. Armando Santos Imaginário tem voz própria, era, aos 15, 16, 17 um autor feito e a construir-se para mais fecundos voos. E nunca será tarde para o
conhecermos/reconhecermos. Este livro e a justeza da sua edição hoje e aqui, será o caminho certo para essa descoberta. Urgente e necessária. Antes que os ventos mudem.
Junto-me neste final de conversa a Carlos Petisca: “A Mão de Armando Soares Imaginário, Parou – A Voz Não, essa permanecerá perene neste “monumento de palavras” que é este livro e a sua obra.