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A Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) realiza amanhã (15 de outubro) a Sessão Solene de Abertura do Ano ...
14/10/2026

A Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) realiza amanhã (15 de outubro) a Sessão Solene de Abertura do Ano Letivo, que contará com uma lição de sapiência proferida por Vitor Serrão, Professor Emérito (ARTIS – Instituto de História da Arte, FLUL), intitulada "Os Direitos do Património Cultural e a Trans-Contemporaneidade das Artes".

📢💬⚠️ LIÇÃO DE SAPIÊNCIA | "OS DIREITOS DO PATRIMÓNIO CULTURAL E A TRANS-CONTEMPORANEIDADE DAS ARTES"

A Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) realiza amanhã (15 de outubro) a Sessão Solene de Abertura do Ano Letivo, que contará com uma lição de sapiência proferida por Vitor Serrão, Professor Emérito (ARTIS – Instituto de História da Arte, FLUL), intitulada "Os Direitos do Património Cultural e a Trans-Contemporaneidade das Artes".

🗓️ Amanhã [15 de outubro]
📍🕔 Porto, FLUP > Anfiteatro Nobre | 17h00

📷 Vítor Serrão

🌐🔗 + info: noticias.up.pt/2026/10/06/vitor-serrao-inaugura-ano-letivo-na-faculdade-de-letras/

Armando Soares Imaginário
09/10/2026

Armando Soares Imaginário

LIVRO DE ARMANDO SOARES IMAGINÁRIO
Domingos Lobo
O brilhante prefácio que abre em esplendor de síntese este
“monumento de palavras”, como lhe chamaria David Mourão-Ferreira, poupa-me tempo e longo discurso. O prefácio é já, na abordagem que faz deste livro, uma apresentação emotiva e crítica do vasto legado literário de Armando Soares Imaginário, cujo percorre quase todos os géneros da arte da escrita literária: a tradução, a poesia, o teatro, a narrativa breve e o ensaio.
De idêntico sentido são as notas introdutórias de Carlos Petisca, resgatando a Fénix e conduzindo-nos pela história de um singular percurso que levou à descoberta, dentro de um velho s**o de desporto, da vasta e poliédrica obra de Armando Imaginário. Não já a famosa arca de Pessoa, mas um s**o a abarrotar de “pequenos blocos de merceeiro, folhas soltas, cartazes de corridas de toiros, sinopses de filmes exibidos no Cineteatro da Chamusca, a par de textos limpos, de fragmentos, versões, poemas não acabados, ideias esboçadas”. Mas, sobretudo, a revelação de uma actividade literária intensa, obsessiva quase, pungente. Um património criativo plural, a aguardar, há anos, o dia de ser descoberto, de ver a luz. Diz-nos Carlos Petisca, que havia deixado de ser um velho s**o para se tornar “uma responsabilidade”.
Com essa “responsabilidade” às costas, que imagino carregada de espanto a cada pepita descoberta, Carlos Petisca inicia a tarefa de escolher, de selecccionar, naquele amontoado de papéis, o legado criativo de um jovem que, na vida brevíssima, havia já publicado um livro, Chamas e Cinzas, título quase premonitório, dir-se-ia. O trabalho de descoberta, que terá sido longo de anos, foi profícuo, revelando-nos um autor de voz madura, invulgar na incursão por géneros vários, mas em que a poesia sobreleva, quer pela abordagem sensitiva dos temas, careados de elementos históricos e líricos que a constituem exemplar, quer pelo domínio da língua, pelo rigor métrico, nomeadamente, nos sonetos, os quais, só por si, serão merecedores de um estudo profundo, quer pela sua metodológica concepção, quer pelas influências que o jovem autor terá sofrido durante a sua génese.
Património de todo invulgar, único, diria, na nossa literatura, que a morte interrompeu (“morrem cedo os que os deuses amam”, escreveu António Manuel Couto Viana), a tuberculose, ao caso, a mesma enfermidade que já ceifara a voz de muitos poetas, de
Cesário Verde, a António Nobre, Júlio Diniz e tantos mais.
Nascido na Chamusca, vila rural do alto Ribatejo (o pleno coração deste território, dirão alguns), nascido em 1928, dois anos após a queda da 1ª. República e na vigência da Ditadura Militar, atravessando os anos da pré-adolescência e da adolescência breve com o espectro da tragédia social e humana que foi a Guerra Civil de Espanha e os ecos da barbárie que a 2ª. guerra mundial espalhou pela Europa, com o Estado Novo já instalado com a sua Constituição de 1933 a dar-lhe lastro de legalidade, em ambiente assim, os horizontes literários, culturais e lúdicos da vila ribatejana não seriam, por essa data, propícios ao desenvolvimento criativo, mormente da literatura, da poesia em particular, função que necessita de serenidade, interioridade e reflexão. Imaginamos o jovem Armando Soares (não passou, infelizmente, no seu período criativo, de um jovem adolescente), a ler tudo o que lhe aparecia, quer livros que teria em casa, quer em bibliotecas particulares ou sociais, a sorver as palavras e a transpô-las em forma literária, para a poesia, primeira incursão desse arrebatamento seria nesse género, no teatro e nos outros departamentos da criação literária, que a vida breve impunha e o talento, sôfrego e carregado de urgências, transpunha e se dispersasse, tal o fogo, a ânsia, esse incontido grito de fixar as palavras que lhe agitavam a cabeça, o coração, o corpo inteiro.
Sabemos que Fernando Pessoa, escreveu os seus poemas ingleses (então vivendo na África do Sul), aos 16 anos, que havia nesses sonetos já uma linguagem adulta, acutilante e lúcida; que Miguel Rovisco nos deixou aos 27 anos, com uma obra teatral notável, que a crítica considerou inovadora e comparável à obra de Santareno; que a minha geração, nascida no pós-guerra, começou púbere a publicar nos suplementos literários juvenis dos jornais República e Diário de Lisboa, mas eram incursões breves no conto, na poesia, na crítica de cinema, nada de substantivo, de “obra feita” e
continuada. A guerra colonial irá revelar, com obras sobre o conflito, uma escrita já maturada, a obra relevante desses aprendizes de feiticeiro: Fernando Assis Pacheco,
Fernando Dacosta, António Lobo Antunes, Modesto Navarro, Alice Vieira, Wanda Ramos, Sérgio de Sousa e eu próprio. Registam-se algumas incursões adolescentes em dois grandes poetas do século XX, José Gomes Ferreira, com o seu Lírios do Monte, publicado quando o autor tinha 15 anos e José Carlos Ary dos Santos, aos 14 anos, com o livro Asas, ambos, o de Zé Gomes e o de Ary, editados pelas famílias, opúsculos que, anos volvidos, os autores rejeitariam.
Se a morte o não tivesse levado tão cedo do nosso convívio, Armando Soares Imaginário, teria juntado, certamente, a sua inquieta voz poética à dos autores seus contemporâneos (nascidos na década de 1920) e do grupo de Coimbra que, em 1941
iniciou, com Novo Cancioneiro, um dos projectos mais inovadores, marcantes e fecundos na nossa poesia, com nomes como Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, Fernando Namora, Joaquim Namorado, João José Cochofel, Sidónio Muralha e Álvaro
Feijó, este último também falecido precocemente, aos 24 anos. Ou, noutra corrente estética, na Távola Redonda, com nomes como José Terra e David Mourão-Ferreira.
Poeta imageticamente plural, mas arreigado às tradições do seu chão primevo, católico, mas aberto ao pulsar da vida, ao mundo do qual cedo percebeu os imperecíveis rumores.
Carlos Petisca, o grande pesquisador destes tesouros, confessa o êxtase que foi desbravar centenas de páginas inéditas, de descobrir uma voz já com identidade, a crescer e a impor-se em cada verso: “Não fomos nós que demos asas ao Armando. As
asas já estavam ali”; ele apenas abriu a gaiola, e este “apenas” dá muito trabalho, muita leitura, muito suor, muita fulgurante descoberta, muitas noites desassossegadas!
No primeiro soneto desta colectânea, em boa-hora levada à estampa pela Cosmos e pelo atento olhar do seu editor, escrito aos 15 anos (são raros os poemas grafados com lugar e data), com o título “1º. de Dezembro”, o poeta exalta a Pátria, o seu ressurgimento após 60 anos de domínio dos Filipes. É um Portugal renascido, da liberdade reconquistada em 1640, num gigante impulso de braveza; o 2º. Soneto, “A Alma dos Lusíadas”, percorre o mesmo impulso de exaltação dos feitos dos nossos egrégios, os
que dominaram a fúria titânica do mar,/na confusão de gritos e orações.// Em cada voz da tempestade louca/em cada olhar tremente, e em cada boca/erguia-se uma estância de Camões.
Em ambos os sonetos descobrimos, no modo arrebatado como o autor fala de Portugal e dos seus heróis, algo que nos faz lembrar a força telúrica do longo poema Pátria, de Guerra Junqueiro (quanto a mim, o grande épico da gesta lusitana, logo a seguir a Os
Lusíadas) e, no 2º., e igualmente no soneto “Alcácer Kibir”, próximo da voz a um tempo contida, mas expressiva de simbolismos, do Pessoa, de Mensagem.
Nestes três sonetos, temos uma construção verbal e lírica algo próxima do tipo de poesia que então os autores do teatro de revista, como Amadeu do Vale, Aníbal Nazaré e Nelson de Barros, escreviam para as actrizes Maria das Neves, Maria Matos e Palmira
Bastos, que arrebatavam as plateias, tempos em que os autores de outras coordenadas criativas não tinham pejo em escrever para esse género teatral. Armando Soares Imaginário, também ele dramaturgo, pertence a esse género de autores como Guerra
Junqueiro, Félix Bermudes, Eduardo Schwalbach, André Brun, ou Xavier de Magalhães, aos quais se juntará, após o 25 de Abril de 1974, nomes como Bernardo Santareno, Mário Castrim e José Carlos Ary dos Santos, todos eles com um grande sentido do poder dramático das palavras.
Também a escola, a “bendita escola”, diz-nos o autor, num país que nos anos 1940 tinha, nas zonas rurais, mais de 70% de analfabetos e, em alguns casos, como na aldeia do Sobralinho, perto de Alhandra, essa percentagem era de 100%, o que levou escritores
como Alves Redol e Soeiro Pereira Gomes a iniciarem aulas de alfabetização e a aí instalarem, posteriormente, uma biblioteca. Mas dizia, também a escola fez parte do álbum de louvores do poeta: Bendita escola e mais quem vai rasgando/luz, nos cérebros
rudes, transformando/crianças de hoje em homens do futuro. Reparem que há já neste soneto uma ténue consciência social, a qual irá atravessar alguns dos textos de Imaginário, onde é patente essa infrene atenção à realidade circundante. Mas o poeta
não deixa, num rasgo de rebeldia infantil, de descrever a escola como uma prisão, referindo o irmão, terminando com um desabafo muito juvenil, o melhor que nela há é o recreio.
Depois dos sonetos de exaltação à Pátria, muito comuns à época, temos a expressão fulgurante do seu amor à terra que o viu nascer. Trata-se de um belíssimo e arrebatado soneto à sua Chamusca natal, datado de 1/10/43, ou seja, dos seus vertiginosos 15 anos
e da sua plenitude criativa:
A MINHA TERRA
Oh! Terra em que eu nasci, que tantos desconhecem,
Tu és, vendo-te assim, a terra mais festiva.
E sinto na minh’alma, em tímida evasiva,
As loucas emoções que aos olhos transparecem.

Saudades que’inda tenho ainda me adormecem
Na ‘sprança de te ver, oh! minha terra esquiva!
Eu quero lá voltar porque ela me cativa,
Conheço toda a gente e todos me conhecem…

Eu quero lá voltar que eu amo esse cantinho,
No qual olhei primeiro o céu de Portugal.
Por Deus, que voltarei ainda velhinho!

Rever eu quero, pois, o meu lindo pombal,
E como a minha pomba, assim dentro do ninho,
Dormir eu quero nela o sono sepulcral!

Trata-se de um poema de alguém que estando ausente, certamente porque a doença já se insinuava, ou por estar a estudar fora, tem a esperança imensa do regresso ao chão inicial, em que todos o conhecem e ele conhece toda a gente, para que nela possa
dormir o sono sepulcral. Para além de uma enorme sensibilidade, neste poema respira já uma voz maior, estruturada e dúctil – adulta, se quisermos, a lembrar Antero de Quental nos seus poemas de despedida, mas aqui, Imaginário (e como este apelido lhe assenta como pelica), a intuir já o fim, essa esperança de ainda conseguir regressar à terra esquiva, ou seja, que ele lobriga já longe, mas desejando, com a força que nas palavras habita, voltar ainda velhinho.
Num outro poema lírico, de registo intimista, o poeta exibe uma voz muito solta, um arrebatamento que é, a um tempo, entrega, recusa e encantamento, mas almejando um radioso futuro, aqui próximo do romantismo límpido de João de Deus.
A NOSSA CASA
Só hoje vi que era pequena assim,
A nossa humilde, encantadora casa.
Um caldo louro a referver na brasa,
E o nosso amor num céu d’azul sem fim.

Cheiro de rosas num ideal jardim,
A acariciar-nos como um ruflo d’asa!
O nosso ninho na campina rasa,
É um bercinho d’infantil cetim.

É linda a nossa casa, entre searas,
Onde todas as noites não são raras
As vozes de escondidos rouxinóis.

Mas agora é que eu vim a reparar,
Ao despedir, quando te fui beijar,
Que nela só cabíamos nós dois!

Reparem na simplicidade da organização sintáctica do poema, o verso certo, a musicalidade, a envolvência, o modo conjuntivo, o cromatismo da descrição: o caldo louro, o cetim do berço, o nosso amor num céu azul, a campina rasa, as searas, as vozes dos rouxinóis: quase a Casa Portuguesa, de Reinaldo Ferreira, mas de um lirismo contido, intimista e desarmante, sem as redundâncias afadistadas do postal ilustrado.
Num outro soneto, dentro da mesma linha simbólica, Armando Imaginário, dá-nos da paixão a medida exacta, seguindo o princípio enunciado por Vinícius de Moraes (que o nosso poeta, pelas razões que sabemos, não conheceu), de que a paixão só é boa enquanto dura e de que a vida dos amantes é feita, também, de separações. Aqui, o sujeito poético conjuga, de forma muito orgânica, em cada verso, três tempos verbais,
desenhando nesses tempos, como a divisão da poética aristotélica, toda a efabulação do poema: exposição, desenvolvimento, clímax. E a voz dual dos amantes percorre todo o texto, dado que no amor e no seu fim há sempre dois protagonistas.
A NOSSA HISTÓRIA
Eu olhei, tu olhaste, nós olhámos;
Eu sorri, tu sorriste, nós sorrimos;
Eu falei, tu falaste, nós falámos;
Eu ouvi, tu ouviste, nós ouvimos.

Eu sonhei, tu sonhaste, nós sonhámos;
Eu senti, tu sentiste, nós sentimos;
Eu amei, tu amaste, nós amámos;
Eu menti, tu mentiste, nós mentimos.

E como a vida é uso em que nos pomos,
Eu vivi, tu viveste, nós vivemos,
Até que nos tornámos no que somos.

Mas o sonho não dura o que nós qu’remos,
E sem já nos lembrarmos do que fomos,
Eu esqueci, tu esqueceste, nós esquecemos!

Os grandes cultores do soneto, Camões, Bocage, Antero, Florbela, são companheiros desta verve, deste estro virtuoso, desta desmesura lexical, deste sentido do ritmo, da monódia intrínseca das palavras, da fecunda imaginação que habitava a cabeça inquieta e o corpo frágil de um rapaz que aos 17 anos nos deixou, legando-nos já burilada, sem rugas temporais (este soneto é de hoje, é de ontem, é de todos os tempos), uma obra poética digna de todos os encómios, de uma singularidade notável e tocante.
Nesta apresentação fico-me apenas pela poesia, considerando esta a respiração mais trabalhada e conseguida da obra de Imaginário. Mas outras sessões se seguirão, estou certo, em que serão desbravados os seus textos para teatro, os seus “entre-actos”, ou
“teatro de cordel”, como era comum nos anos 30/40 do século pretérito e que tinha em Lisboa o seu espaço de eleição, o Teatro Ginásio, paredes meias com o Teatro da Trindade. Valerá ainda a pena passearmos pelos seus contos, pela frescura dessa fala,
pelo modo sensitivo como descreve a paisagem rural, as casas, as gentes, as ruas, as touradas, as festas da Chamusca da sua adolescência. Tanto caminho ainda a desbravar,
tantas janelas ainda por abrir. A Fénix renasceu e há-de voar se os acalentos chegarem e lhe dermos espaço. Se o poeta reside na forma, como nos disse Herberto Hélder, seguindo Todorov, essa
estética está já, conceptualmente instalada, nos seus poemas de modo muito vincado, com identitário rigor. Armando Santos Imaginário tem voz própria, era, aos 15, 16, 17 um autor feito e a construir-se para mais fecundos voos. E nunca será tarde para o
conhecermos/reconhecermos. Este livro e a justeza da sua edição hoje e aqui, será o caminho certo para essa descoberta. Urgente e necessária. Antes que os ventos mudem.
Junto-me neste final de conversa a Carlos Petisca: “A Mão de Armando Soares Imaginário, Parou – A Voz Não, essa permanecerá perene neste “monumento de palavras” que é este livro e a sua obra.

A lição de sapiência “Os Direitos do Património Cultural e a Trans-Contemporaneidade das Artes” marcará a cerimónia do d...
08/10/2026

A lição de sapiência “Os Direitos do Património Cultural e a Trans-Contemporaneidade das Artes” marcará a cerimónia do dia 15 de outubro.

MEMÓRIA EDITORIAL | INVESTIGAÇÃOEDIÇÕES COSMOSA mais antiga editora independente portuguesa ainda em atividade!Nascida n...
04/10/2026

MEMÓRIA EDITORIAL | INVESTIGAÇÃO
EDIÇÕES COSMOS
A mais antiga editora independente portuguesa ainda em atividade!
Nascida na década de 1930, ligada a uma das mais importantes experiências de divulgação cultural do século XX português, a Cosmos atravessou o Estado Novo, o 25 de Abril, a democracia e as profundas transformações do mercado livreiro. Hoje continua a editar.
Uma editora que atravessou o século
Há perguntas que parecem simples até começarmos a investigar.
Uma delas é esta: qual é a mais antiga editora privada portuguesa que continua atualmente em atividade e independente dos grandes grupos editoriais?
A resposta conduz-nos às Edições Cosmos.
Mas chegar a esta conclusão exige algum cuidado. A história da Cosmos não cabe numa única data. Há referências documentais a 1926, a 1937 e a 1938, correspondendo a diferentes momentos da história empresarial e editorial da marca.
A data que hoje serve de referência à história das Edições Cosmos é 1937. É também essa a data adotada por fontes institucionais e pela própria memória da editora.
Mas os documentos contam uma história mais complexa e, na minha opinião, mais interessante.

1937: o nascimento de um projeto editorial
É em 1937 que encontramos a data tradicionalmente associada ao nascimento da Cosmos enquanto projeto editorial que viria a marcar profundamente a cultura portuguesa.
A editora surge ligada a Manuel Rodrigues de Oliveira, homem que acabaria por lhe imprimir uma orientação editorial própria e duradoura.
O Museu do Neo-Realismo identifica a Cosmos como uma das grandes referências editoriais portuguesas do século XX e destaca precisamente o papel de Manuel Rodrigues de Oliveira na sua construção.
Mas, quando se consultam fontes históricas e bibliográficas, aparece uma primeira surpresa.
A Associação Portuguesa de Editores e Livreiros apresenta referências a uma Edições Cosmos com origem em 1926, indicando uma empresa fundada em Lisboa e inicialmente ligada a João de Almeida Júnior e António Duarte Costa. A mesma documentação refere a entrada de Manuel Rodrigues de Oliveira na estrutura da empresa em 1938.
É aqui que se torna necessário distinguir a genealogia empresarial da Cosmos da fundação do projeto editorial que hoje reconhecemos como Edições Cosmos.
Não se trata necessariamente de escolher entre uma data verdadeira e outras falsas.
Trata-se de perceber que a empresa e o projeto editorial passaram por diferentes fases.

1926, 1937 ou 1938?
Esta é provavelmente a questão que mais facilmente pode gerar confusão.
Se procurarmos a origem empresarial mais remota associada ao nome Cosmos, encontramos 1926.
Se procurarmos a data de referência do nascimento da Cosmos enquanto projeto editorial moderno, encontramos 1937.
E se procurarmos a constituição formal da sociedade e a entrada decisiva de Manuel Rodrigues de Oliveira na empresa, encontramos 1938.
Estudos académicos que analisaram a história editorial portuguesa também chamam a atenção para a necessidade de distinguir entre a Editorial Cosmos dos anos 1930 e as posteriores Edições Cosmos associadas a Rodrigues de Oliveira.
É precisamente por isso que, neste artigo, utilizo 1937 como data de referência, sem esconder os antecedentes de 1926 e o momento decisivo de 1938.
É uma distinção importante para quem pretende contar esta história com rigor.

Manuel Rodrigues de Oliveira
Se há um nome que não pode ser separado da história da Cosmos é o de Manuel Rodrigues de Oliveira.
Foi ele quem deu à editora uma identidade cultural muito particular.
A Cosmos não se limitou a funcionar como uma empresa que comprava direitos, imprimia livros e os colocava no mercado.
Havia um projeto.
Havia uma ideia de cultura.
E havia sobretudo a convicção de que o livro podia desempenhar um papel fundamental na formação dos portugueses.
A atividade editorial da Cosmos ganhou assim uma dimensão que ultrapassava claramente a simples lógica comercial.
A qualidade gráfica das edições, a escolha dos autores e, sobretudo, a aposta na divulgação científica e cultural contribuíram para transformar a editora numa referência.
E foi nesse contexto que surgiu uma das maiores aventuras editoriais portuguesas do século XX.

A Biblioteca Cosmos
Em 1941, a Cosmos lançou a Biblioteca Cosmos, dirigida intelectualmente por Bento de Jesus Caraça.
É impossível falar da história da edição em Portugal sem falar desta coleção.
A Biblioteca Cosmos nasceu num país submetido à censura e à ditadura do Estado Novo.
E, apesar desse contexto, procurou levar ao público conhecimentos de história, ciência, filosofia, economia e cultura.
A sua ambição era extraordinária: democratizar o acesso ao conhecimento através do livro.
Até 1948 seriam publicados 114 títulos, segundo documentação da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros.
A Biblioteca Cosmos tornou-se, assim, muito mais do que uma coleção.
Foi um projeto cultural.
Foi uma experiência de divulgação do conhecimento.
E tornou a Cosmos indissociável da história intelectual portuguesa.

Uma editora num país sob censura
É importante não esquecer o contexto.
Quando a Cosmos desenvolvia a sua atividade, Portugal vivia sob o Estado Novo.
A censura condicionava a imprensa, os livros e a circulação de ideias.
O acesso à cultura era profundamente desigual.
É neste ambiente que a atividade da Cosmos ganha uma importância especial.
Através das suas coleções, a editora procurava colocar ao alcance de um público mais vasto conhecimentos que normalmente circulavam em meios académicos ou intelectuais mais restritos.
A colaboração com Bento de Jesus Caraça tornou essa ambição particularmente evidente.
A Biblioteca Cosmos não foi apenas um fenómeno editorial.
Foi também um fenómeno cultural e social.

Uma história que não terminou
Uma das conclusões mais interessantes desta investigação é que a importância da Cosmos não ficou confinada às décadas de 1940 e 1950.
A editora continuou a publicar ao longo das décadas seguintes.
A documentação conservada no Portal Português de Arquivos inclui correspondência das Edições Cosmos relativa aos anos 1941 a 1949, incluindo documentação relacionada com autores e com Manuel Rodrigues de Oliveira.
Estudos sobre a editora acompanham a sua atividade ao longo de várias décadas e mostram a continuidade de um projeto editorial que chegaria ao final do século XX.
A Cosmos não foi, portanto, uma editora que viveu apenas de uma coleção célebre.
Foi uma editora com continuidade.

2003: uma nova etapa
A história da Cosmos também conheceu mudanças de propriedade.
Em 2003, a empresa foi adquirida pelo industrial gráfico Joaquim Garrido, segundo a documentação da APEL.
Esta mudança é importante para compreender o significado da palavra independente.
Uma editora independente não tem necessariamente de permanecer nas mãos da família do fundador durante toda a sua existência.
Pode mudar de proprietário.
Pode mudar de administração.
Pode adaptar o seu catálogo e a sua estrutura empresarial.
O essencial é que mantenha autonomia relativamente aos grandes conglomerados editoriais e conserve um projeto editorial próprio.
É nesse sentido que considero a Cosmos uma editora independente.

Independente não significa imutável
Esta distinção é fundamental.
Ao longo dos seus quase 90 anos, a Cosmos mudou.
Mudaram os homens.
Mudaram os livros.
Mudaram os leitores.
Mudou o mercado.
Mudou o país.
Mudou a tecnologia.
Mas a editora manteve uma característica essencial: a continuidade de uma identidade editorial própria.
É precisamente essa continuidade que a diferencia de marcas históricas que foram posteriormente absorvidas por grandes grupos ou que hoje existem apenas como selos editoriais.

A Cosmos continua a publicar
Há, porém, uma pergunta ainda mais importante.
A Cosmos continua realmente a editar?
A resposta é sim.
A editora mantém atualmente atividade editorial e catálogo próprio, com novas publicações e edições recentes. A sua presença no mercado não se limita ao património histórico da Biblioteca Cosmos.
É uma editora que continua a colocar livros no mercado.
E isso altera completamente a questão da antiguidade.
Não estamos perante uma marca histórica.
Estamos perante uma editora histórica que continua em exercício.

O reconhecimento em 2026
A longevidade da Cosmos recebeu uma confirmação particularmente significativa em 2026.
A Sociedade Portuguesa de Autores atribuiu às Edições Cosmos a Medalha de Honra, numa cerimónia realizada em maio.
A distinção reconheceu a importância da editora no panorama cultural português e foi recebida por Joaquim José Duarte Garrido.
A atribuição desta distinção, quase nove décadas depois do início da história da Cosmos, tem um significado especial.
Não se tratou simplesmente de homenagear uma marca antiga.
Tratou-se de reconhecer uma instituição que continua viva.

E a Afrontamento?
Foi precisamente durante esta investigação que percebi que uma resposta inicialmente dada — apontando a Afrontamento, fundada em 1963, como a mais antiga editora independente portuguesa — não resistia ao confronto com a história da Cosmos.
A Afrontamento é, sem dúvida, uma das mais importantes editoras independentes portuguesas e possui uma longevidade notável.
Mas a Cosmos é anterior em mais de duas décadas, tomando 1937 como a data de referência.
A diferença não é pequena.
Quando a Afrontamento nasceu, a Cosmos já tinha uma história editorial consolidada e já tinha publicado a Biblioteca Cosmos.

A pergunta certa
Depois de consultar documentação histórica e confrontar as diferentes datas, percebi que talvez a pergunta devesse ser formulada de outra maneira.
Não:
“Qual é a editora portuguesa mais antiga?”
Mas sim:
“Qual é a mais antiga editora privada portuguesa, independente dos grandes grupos editoriais e ainda efetivamente em atividade?”
É uma pergunta muito mais específica.
E, com esse critério, a resposta que considero mais sustentada é:
EDIÇÕES COSMOS
Fundação de referência: 1937
Atividade editorial: continua em 2026
Natureza: editora privada e independente

Quase nove décadas de livros
Ao longo desta investigação, aquilo que mais me impressionou não foi simplesmente a idade da Cosmos.
Foi a sua capacidade de sobreviver.
Sobreviveu ao Estado Novo.
Sobreviveu à censura.
Sobreviveu ao 25 de Abril.
Sobreviveu à transformação da sociedade portuguesa.
Sobreviveu à mudança dos hábitos de leitura.
Sobreviveu à concentração empresarial do setor.
Sobreviveu à revolução digital.
E continua a publicar.
Em 1937, ninguém poderia prever o Portugal de 2026.
Mas alguém decidiu que valia a pena publicar livros. Essa decisão atravessou gerações.
A mais antiga editora independente em Portugal.
Por tudo isto, considero legítimo afirmar que as Edições Cosmos são a mais antiga editora privada portuguesa independente ainda em atividade, utilizando 1937 como a data de referência da sua fundação enquanto projeto editorial.
Faço, contudo, questão de deixar registada a ressalva histórica.
A genealogia da Cosmos inclui referências anteriores, nomeadamente 1926, e a constituição e reorganização da empresa conhecem um momento decisivo em 1938.
Mas nenhuma dessas nuances altera o essencial.
A Cosmos pertence às raízes mais profundas da edição privada portuguesa e continua hoje a exercer atividade editorial.
E há uma diferença enorme entre uma editora que pertence à história e uma editora que continua a fazer história.
A Cosmos pertence às duas.

CRONOLOGIA | COSMOS
1926
Referências documentais a uma empresa editorial denominada Edições Cosmos, ligada a João de Almeida Júnior e António Duarte Costa.
1937
Data de referência tradicionalmente adotada para o nascimento das Edições Cosmos enquanto projeto editorial associado à nova fase da editora.
1938
Entrada de Manuel Rodrigues de Oliveira na estrutura da empresa e consolidação da nova orientação editorial.
1941
Nascimento da Biblioteca Cosmos, dirigida intelectualmente por Bento de Jesus Caraça.
1941–1948
Publicação de 114 títulos da Biblioteca Cosmos.
Décadas seguintes
A Cosmos mantém atividade editorial e consolida o seu lugar na cultura portuguesa.
2003
Aquisição da marca “ Edições Cosmos “ pela ZAINA PORTUGAL empresa sediada na Vila da Chamusca.
2026
As Edições Cosmos continuam a publicar e recebem a Medalha de Honra da Sociedade Portuguesa de Autores.

NOTA DO AUTOR
A classificação de uma editora como “a mais antiga independente” depende necessariamente dos critérios utilizados. Existem diferenças entre a data de criação de uma empresa, o início da sua atividade editorial, a constituição formal de uma sociedade e a continuidade de uma marca editorial.
Neste artigo, considero como critérios fundamentais a origem histórica em Portugal, a natureza privada, a continuidade efetiva da atividade editorial e a independência relativamente aos grandes grupos editoriais.
Com esses critérios e com base na documentação consultada, as Edições Cosmos, com 1937 como data de referência, constituem a mais antiga editora independente portuguesa ainda em atividade.

Um grande livro com a chancela Zaina Editores.
03/10/2026

Um grande livro com a chancela Zaina Editores.

O livro a que estas linhas servem de preâmbulo - em obediência a um convite que muito me honra configura uma dupla homen...
02/10/2026

O livro a que estas linhas servem de preâmbulo - em obediência a um convite que muito me honra configura uma dupla homenagem sentida: ao Professor Augusto Pires Celestino da Costa - o Mestre reconhecido -, e ao Professor José Francisco David Ferreira, "o seu último discípulo".
A pedido da família e dos continuadores da obra de David Ferreira, o Doutor Tiago Brandão encarregou-se - com critério e mestria no ofício - de conferir às redações e fragmentos no espólio recolhidos a forma concatenadamente legível que na publicação presente se saúda: articulando troços incompletos na redacção, procedendo a pertinentes contextualizações antes tão-só em esboço sugeridas, aduzindo uma iluminadora série de textos menos acessíveis de Celestino da Costa, compondo um cuidado aparato crítico de notas, perfis biográficos, e indicações bibliográficas.
Na fidelidade ao prosseguimento de uma exigente tradição (de resto, inaugurada logo pelo seu fundador: Bento de Jesus Caraça), este volume aparece - por razões que não relevarão do fortuito acaso - sob a chancela das "Edições Cosmos". A associação é, a todos os títulos, feliz.

in Prefácio de José Barata-Moura

A ideia e a decisão de escrever este livro veio tardiamente na vida de J. F. David-Ferreira; partiu de um esboço de uma autobiografia do próprio Celestino (o qual havia intitulado "História d'uma Experiência" e a que teve acesso graças à amizade do filho do seu Mestre, Jaime Celestino da Costa), servindo inicialmente de matriz ao estudo biográfico que abraçara nos últimos anos da sua vida. Partiu esta biografia do estudo que David-Ferreira conduziu, pessoalmente, observando os testemunhos dos que com ele trabalharam, discípulos, colegas e familiares, como lendo o muito que o próprio Celestino escreveu e que ficou como marca indelével do seu próprio pensamento.
O saudoso David-Ferreira pretendia, antes de mais, fazer justiça à memória do seu Mestre. Nisso penou, como penam todos os que assumem publicamente boas intenções, num País e num meio fustigado por atitudes mesquinhas, incluindo as capelinhas universitárias, pela própria arbitrariedade de caciques e mandarins, e, claro, de muito boa gente que infelizmente nunca conseguiu se libertar da mentalidade de uma pseudo-aristocracia. E assim se mantinha o triste facto: o sábio lisboeta, A. Celestino da Costa, abundantemente citado pelos historiadores do período, não tem merecido condigna reflexão sobre o seu perfil, e respectivos ideais, dimensões e, sobretudo, quanto ao alcance extraordinário do seu pensamento.

in Prólogo de Tiago Brandão

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