15/06/2026
Continuo pensando sobre irrelevância e pertencimento .
Por Dado Ferreira
Ouço muitos falarem sobre sentir-se na sala, assentar-se à mesa. Essa última verdade até virou moda. E, claro, é bom estar na sala, sentar-se à mesa — mas esses são lugares comuns para quem entra em uma casa, ainda que seja apenas para uma visita. A sala é o espaço do acesso permitido; a mesa, o lugar do convite.
São temas frequentes em sermões acalorados ultimamente. Mas o que me inquieta nessa questão é que a sensação de pertencimento não se limita à sala ou à mesa.
Pertencer é poder circular pela casa toda.
O que realmente me dá sentido, mesmo sendo já alguém com a própria vida, é chegar à casa do meu pai e ir além da sala e da cozinha. É poder abrir a geladeira sem cerimônia, entrar nos cômodos íntimos — lugares onde só filhos entram —, caminhar pelo jardim interno com liberdade.
Não é sobre estar à mesa.
É sobre abrir a geladeira.
É sobre mexer nas panelas.
E, por que não, preparar a refeição sem reservas.
Porque filho não pede permissão para tudo — filho já tem acesso.
E talvez o grande problema de muitos hoje não seja a falta de convite…
mas a ausência de consciência de filiação.
Vivem como visitantes em uma casa onde já foram feitos filhos.
Param na sala, quando poderiam descansar no quarto.
Agradecem pela mesa, mas nunca ousam tocar na cozinha.
Celebram o convite, mas não desfrutam da herança.
Pertencimento não é ser recebido.
É saber que a casa também é sua.
E enquanto muitos ainda se comportam como convidados diante de Deus,
Ele continua sendo Pai… esperando filhos que não apenas entrem —
mas que permaneçam, habitem e vivam como quem realmente pertence.