28/08/2026
ADEUS A UM CAVALHEIRO
Hoje, 28 de agosto de 2026, a Noruega perdeu uma de suas figuras mais reconhecíveis. O rei Harald V morreu aos 89 anos, no Hospital Universitário de Oslo, às 6h35 da manhã, encerrando um reinado iniciado em 1991 e uma vida pública que atravessou guerra, exílio, transformação social e mais de três décadas à frente da monarquia norueguesa.
Harald não foi simplesmente um rei. Foi um elo vivo entre duas Noruegas: aquela ainda marcada pela memória da guerra e do exílio e a Noruega moderna, próspera, multicultural e profundamente integrada à sociedade europeia.
Nascido em 1937, Harald passou parte da infância no exílio durante a ocupação nazista. Retornou à Noruega em 1945 e, décadas depois, tornou-se o primeiro monarca norueguês nascido em território nacional em quase seis séculos. Em 1991, sucedeu seu pai, Olav V, e recebeu como lema uma frase que definiria sua existência: “Tudo pela Noruega.”
Mas talvez nenhuma história revele melhor o homem por trás da coroa do que sua história de amor. Quando ainda era príncipe herdeiro, Harald apaixonou-se por Sonja Haraldsen, uma jovem norueguesa sem sangue real. Durante anos, seu pai, o rei Olav V, hesitou em aceitar o casamento. Harald, porém, permaneceu irredutível. Não queria outra noiva. A espera durou nove anos.
Em 1968, Harald finalmente se casou com Sonja — uma decisão que, retrospectivamente, simbolizaria aquilo que sua monarquia viria a ser: menos preocupada com a distância entre a realeza e o povo e mais interessada na legitimidade construída pelo serviço.
Harald compreendeu que a monarquia não poderia sobreviver como uma relíquia de uma sociedade homogênea que já não existia. Seus discursos tornaram-se conhecidos pela defesa da tolerância, da inclusão e da diversidade. Em uma das passagens mais marcantes de seu reinado, afirmou que os noruegueses eram pessoas que acreditavam “em Deus, em Alá, no universo e em nada”, e que todos faziam parte da mesma comunidade.
Foi uma concepção extraordinariamente moderna para um soberano europeu: a coroa não deveria representar uma origem, uma religião ou uma etnia, mas uma sociedade inteira.
Essa postura também se refletiu na própria família real. Harald acolheu Mette-Marit, uma mãe solteira com um filho de relacionamento anterior como futura esposa do herdeiro da Coroa — uma decisão que inicialmente provocou enorme controvérsia, mas que ele apoiou firmemente.
Harald possuía ainda uma característica quase incompatível com a imagem tradicional de um monarca: era genuinamente apaixonado por esportes. Foi velejador olímpico. Representou a Noruega nos Jogos de 1964, 1968 e 1972. Em 1987, conquistou o campeonato mundial com o Fram X; em 2005, tornou-se campeão europeu com o Fram XV. Continuou participando de regatas durante décadas e somente encerrou sua carreira competitiva em 2022.
Gostava também de pesca, caça, natureza e das montanhas norueguesas. Não por acaso, tornou-se um dos grandes defensores da preservação ambiental. Mas talvez nenhum episódio demonstre melhor essa paixão pela natureza do que sua viagem à Amazônia.
Em abril de 2013, aos 76 anos, Harald realizou um sonho que carregava desde os tempos em que se envolvera com a conservação ambiental. Foi à Amazônia brasileira e viveu durante quatro dias entre os Yanomami, na comunidade de Demini, em Roraima. Dormiu em uma rede, comeu a comida tradicional da comunidade, caminhou pela floresta e acompanhou caçadores. Foi recebido por Davi Kopenawa e pelos habitantes da aldeia.
Harald enfrentou doenças, cirurgias e um mar de problemas de saúde nos últimos anos. Ainda assim, recusou repetidamente a ideia de abdicar.
Para ele, o compromisso assumido perante o Parlamento norueguês não era temporário.
Era para a vida inteira.
E assim foi.
Hoje, a bandeira real baixou a meio-mastro em Oslo. O homem que durante 35 anos ocupou a varanda do Palácio Real, recebeu multidões, abriu o Parlamento, disputou regatas, visitou aldeias, consolou uma nação em momentos de tragédia e defendeu uma Noruega cada vez mais plural já não está entre nós.
Harald V pertence agora à história. O menino que conheceu o exílio, o príncipe que esperou nove anos pela mulher que amava, o velejador olímpico, o ambientalista que sonhou com a Amazônia, o rei que escolheu a inclusão em vez da distância e que se recusou a abandonar seu dever até o último dia.
A Noruega perdeu seu rei.
A Europa perdeu uma de suas últimas testemunhas vivas de um mundo que desapareceu.
Vida longa ao rei Haakon VIII.
Foto: Harald como príncipe herdeiro na década de 50.