23/07/2025
“O povo angolano está a ser enterrado vivo, enquanto o Presidente diz que está tudo normal”
O Presidente João Lourenço apareceu na CNN a minimizar os protestos do povo. Disse que os motivos são “pretextos para criar instabilidade” e tentou justificar o aumento do combustível dizendo que “em Angola ainda é barato”. Isso não é só cinismo. É uma afronta direta à dignidade de milhões de angolanos.
Vamos ser sérios: o povo não vive de comparações. O povo vive de salário — que não tem. Vive de emprego — que não encontra. Vive de pão — que já não consegue comprar.
Dizer que o combustível está barato porque custa 40 cêntimos de dólar é insultar a inteligência de qualquer cidadão consciente. Em países como Noruega, Canadá, França ou Alemanha, o combustível é mais caro, sim. Mas nesses países, um trabalhador comum ganha o suficiente para pagar combustível, comer, estudar, ter saúde de qualidade e ainda poupar. Em Portugal, onde o Presidente deu a entrevista, o salário mínimo é acima de 800 euros. Lá, quem trabalha sobrevive. Aqui em Angola, quem trabalha passa fome. Quem não trabalha, morre lentamente.
Comparar preços com países desenvolvidos sem comparar salários, condições sociais, segurança, saúde e educação é desonesto. É tentar tapar o sol com a peneira. Na África do Sul, com todos os seus problemas, o povo tem um sistema de apoio social. No Botswana, há gestão transparente dos recursos. Em Rwanda, há um combate real à corrupção. Em Angola, tudo o que temos são promessas repetidas e uma elite que se recusa a largar o osso.
Os empréstimos do FMI e do Banco Mundial não foram usados para diversificar a economia, nem para criar emprego. Foram usados para alimentar um sistema podre, onde meia dúzia enriquece com contratos milionários e o povo é deixado com sobras. A dívida foi feita em nome do povo, mas a fatura está a ser paga com o sofrimento de quem vive com menos de 500 kwanzas por dia.
O povo angolano não está a pedir luxo. Está a pedir dignidade. Está a pedir comida, transporte, saúde, escola e paz. E quando levanta a voz, é acusado de querer “desestabilizar o país”. Quem desestabilizou Angola foi a ganância, a corrupção e a mentira institucionalizada. O povo apenas está a lutar para sobreviver.
O Presidente diz que está no fim do mandato. Pois bem, que termine. Mas leve com ele a arrogância, a indiferença e a cegueira política. O povo vai continuar aqui, e mais cedo ou mais tarde, vai cobrar — com palavras, com protestos, com votos, com coragem.
Angola não é propriedade de ninguém. Angola é do seu povo. E o povo já está a perder o medo.